quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Alguns aspectos do relevo e hidrografia de Tabatinga

Agosto/2012



O relevo desta porção da bacia sedimentar amazônica é sem grandes desníveis topográficos. Sua forma varia de suave ondulado a ondulado com dissecação variada. É notadamente marcado por interflúvios tabulares, relevos dissecados em cristas e colinas, superfície ondulada, planícies aluviais e terraços, estes últimos, resultam do trabalho de correntes fluviais que ali impuseram suas planícies de inundação e a abandonaram mais tarde. Na maioria das vezes são limitados por uma pequena escarpa que se apresenta direcionada aos cursos d’água.
Cristofoletti (1974) apud Radambrasil (1977, p.39), ainda esclarece que se o terraço for constituído de materiais que tenham relação com a antiga planície de inundação, serão designados como “terraços fluviais”. No entanto, se já foram esculpidos pela ação da morfogênese fluvial, sobre as rochas que compõem as encostas dos vales, neste caso serão classificados como “terraços rochosos”. Os que se apresentam no relevo de Tabatinga, são terraços fluviais. Eles ainda podem ser classificados como Terraços Altos e Terraços Dissecados, ambos encontrados nesta área.
  Mesmo supondo que nestes terraços haja depósitos aluvionários, é possível que toda ou quase toda a planície de inundação anterior possa ter sido removida antes ou durante a formação da nova planície. Nos vales onde não há espaço para o desenvolvimento lateral destas planícies, este processo ocorreu de forma mais intensa
As imagens de radar desta área mostram que margeando as atuais planícies de inundação dos principais cursos d’água, há faixas rebaixadas, que os geólogos do Radambrasil, acreditam ser terraços ou quem sabe uma sucessão deles.
Os interflúvios que caracterizam o relevo, também compõem a rede hidrográfica do município de Tabatinga, que constitui-se de vários deles. Esta rede hidrográfica inclui vários cursos d’água que podem ser agrupados em três bacias distintas, como mostra o mapa hidrográfico do município de Tabatinga: 
 Os ambientes de sedimentação desta área frequentemente são marcados por seções sedimentares espessas e extensas, onde o rio e a extensão da planície de inundação determinarão o seu tamanho. As planícies de inundação dos rios que fazem parte desta área são consideradas amplas. São formadas por depósitos aluvionários, que resultam de um processo em que os rios no seu percurso retiram da parte côncava e depositam o material erodido na parte convexa.
A planície aluvial que margeia os rios de "águas brancas" (águas barrentas), ricas em material suspenso, como o Amazonas, Juruá, Madeira e Purus, e que está sujeita à inundação sazonal é, regionalmente, denominada várzea. Lima et al (2006, p.1) citando Iriondo (1982) e Sioli (1951) diz que “a várzea compreende grandes faixas de terras, podendo alcançar até 100 km de largura, em um complexo sistema de canais, lagos, ilhas e diques marginais” .
Ao conjunto de terras que não sofrem inundação, nesta região recebem a denominação de Terra Firme, que segundo Lima et al, (2006, p.1), nesta área especificamente é formada a partir de sedimentos terciários da Formação Solimões .
   E-mail: geopalmeida@gmail.com

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O recuo das águas e as evidências da dinâmica fluvial

Afloramento de linhito em Tabatinga. Foto: Paulo Almeida (2006/2010)














Julho 2012

As águas continuam recuando e nos mostram mais uma vez o que já vem ocorrendo há milhões de anos, como resultado da dinâmica do rio. Em frente à cidade de Tabatinga, próximo à Comara, testemunharemos também o resultado de um fenômeno geológico que tem despertado interesse em entendê-lo. Refiro-me ao depósito de linhito que sempre fica exposto durante a seca do rio Solimões.
O Radambrasil (1977) esclarece que na constituição geológica desta parte da região amazônica, há sedimentos que foram depositados já na atual era geológica, denominada Cenozóica,  com idade inferior a 65 milhões de anos. E por serem da Era Cenozoica, são chamados de Depósitos Cenozóicos. Estes depósitos apresentam-se tanto em bacias sedimentares quanto em coberturas diversas. São por vezes até classificados estratigraficamente, mas sob os pontos de vista de extensão superficial e espessura não configuram uma bacia (SILVA et al., 2003, p. 78).
 Nesta parte oeste da Amazônia, estes sedimentos estão divididos nas Formações Solimões, inferior (Mioceno-Plioceno) e Içá, superior (Pleistoceno). Silva et al. (2003, p. 78) citando Maia et al. (1977), informa que os sedimentos da Formação Solimões consistem-se de argilitos, siltitos e arenitos. Além dos sedimentos pilo-pleistocênicos da Formação Solimões ocorre também os depósitos aluvionários holocênicos: Aluviões Indiferenciadas sobre terraços fluviais e Aluviões Atuais das planícies de inundação que estão associados à rede de drenagem amazônica superpondo-se em discordância com a Formação Solimões.
O trabalho de Hauxwell citado por Oliveira e Leonardos (1943) apud Radambrasil (1977, p. 27), nos estudos desenvolvidos a partir de conchas encontradas na Camada de Pebas, considerou que estes fósseis são de espécies de épocas não superiores aos do Terciário e que viveram em ambiente de água doce, ou talvez salobra.
Oliveira e Carvalho (1924 apud RADAMBRASIL, 1977, p. 27) viajaram pelos rios Içá, Javari e Solimões, embasados na informação de Stere (1871 apud RADAMBRASIL, 1977, p. 27), que havia constatado vários depósitos com características similares aos da Camada Pebas, tomadas então como extensão dela aflorando em Tabatinga, sob a forma de “leitos horizontais de argilas com veios de carvão argiloso”. Eles concluíram que estes afloramentos de linhito são do terciário e confirmaram o que pensava Stere (1871), correlacionando-os à Camada Pebas.
Medeiros; Schaller; Friedman (1971) e Suguio (1973) apud Radambrasil (1977, p. 37) consideram que a ocorrência destes depósitos carbonosos em ambiente de planície de inundação, deve-se à estagnação da água em decorrência de áreas mal drenadas, pantanosas ou lagos de meandros.
Esse material fossilífero tem fomentado muitos estudos, e embora alguns autores já o tenham encaixado no Mioceno-Pleistoceno, Mioceno, Oligoceno-Mioceno, Eoceno, etc., esta cronologia e posicionamento estratigráfico têm suscitado muitas controvérsias.
  
E-mail: geopalmeida@gmail.com

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Além das águas da cheia

Desde tempos remotos que os rios têm sido importantes não apenas para
a conexão entre civilizações, mas, também contribuíram para o
surgimento, às suas margens, de várias delas. Por estas vias fluviais
entrou o branco invasor, que encontrou e conquistou as civilizações
ameríndias. Civilizações que ainda hoje despertam muita curiosidade
aos estudiosos, pela sua cerâmica, pelos seus templos no relevo
andino, pelo conhecimento que já possuíam e muitas outras
características igualmente interessantes.
Vivemos em uma região com a maior bacia hidrográfica e o maior rio do
planeta. E apesar disso, ainda nos surpreendemos com as proporções a
que chegam os rios desta bacia, quando é época das cheias. Nossos
antepassados também conviveram com elas, e da mesma forma tomaram
muitas lições. A ciência vêm procurando estudar os rios pelo enfoque
da geologia, da geomorfologia, da hidrologia, da hidrografia, da
limnologia etc. Desde os altiplanos peruanos até a sua foz, o rio
Amazonas continua sendo um mestre na arte de ensinar. Uma destas
lições ele nos mostra pelo menos uma vez por ano: seu volume d'água.
Visto pelos engenheiros como um importante meio de geração de energia
elétrica. De fato, é um volume muito grande que assim como em outros
tempos, nesta última década vêm de novo mostrando sua força. E também
reforçando a lição que não pode ser represado. Basta olhar como ficam
as suas margens quando ele está cheio, imagine como ficariam se fosse
represado? É o maior rio do mundo, não deve ser subestimado.
A hidrologia nos explica que não é apenas água que o rio está
transportando. Embora seja isso o que mais nos é visível e de
fundamental importância para o ciclo hidrológico. O rio perde água
pelo escoamento, pela infiltração e pela evaporação, contribuindo
desta forma para o ciclo da água. Mas, além disso, o rio e toda a sua
bacia também transportam sedimentos, desempenhando a tarefa que
segundo Filizola (2003) é transportar para os oceanos a matéria
sublevada dos continentes, constituindo-se também preponderantes para
a manutenção do ciclo dos elementos.
Filizola (2003), considera que "os rios respondem muito rápido às
condições do meio existente na superfície dos continentes, em alguns
meses para o caso do transporte em solução, e em alguns anos para o
caso do transporte em suspensão. Portanto, são particularmente
sensíveis à toda mudança, seja ela climática ou resultante de
atividades humanas (antropismo)". Esta é outra lição que não pode ser
esquecida. A erosão, transporte e deposição que resultam dos trabalhos
dos rios, contribuem não apenas para a modelagem da paisagem, mas,
transferem importantes nutrientes para vários pontos de seu percurso
até o oceano. Estes nutrientes, por onde passarem, até mesmo quando
alcançarem o oceano, levarão consigo a possibilidade da manutenção da
ictiofauna e das espécies marinhas.
Na nossa região não é diferente. Toda vez que a cheia acontece, inunda
margens e sobre elas deposita uma nova carga de nutrientes. Alcança
lagos e outros cursos d'água transferindo vários nutrientes de um
ambiente para outro.
São breves lições que o rio insiste em nos mostrar, mas essenciais
para lembrar o que já foi decantado numa toada: " a vida depende da
vida para sobreviver".